O dia em que Humberto Delgado se encantou pelo Porto.

 

inscrição numa parede: o meu coração ficará no Porto

Escrevo este artigo num dia 25 de Abril, quando Portugal comemora o Dia da Liberdade, o dia do fim da ditadura imposta por Antonio de Oliveira Salazar e o seu regime do Estado Novo.

É dos meus dias preferidos desde quando cá cheguei. Foram raros os anos que não fui atá a Baixa do Porto comprar o meu cravo e me encantar com as pessoas a circular pela Praça da Liberdade, Av. dos Aliados e Praça General Humberto Delgado a comemorar o Dia da Liberdade.


Em 2020, devido à pandemia Covid-19, o 25 de Abril foi comemorado à janela, assim como tantas outras celebrações. Mas foi o ano que tive a oportunidade de saber mais sobre Humberto Delgado, o general sem medo, disposto a morrer pela liberdade.
Tudo começou quando ouvi uma série de podcasts que entrevistava Frederico Delgado Rosa, neto de Humberto Delgado a resoeito do livro que havia escrito sobre o seu avô ao mesmo tempo que ia descrevendo uma figura tão importante para a história do 25 de Abril. Uma história que afinal havia começado muito antes de 1974, quando Humberto Delgado decide candidatar-se à Presidência da República.

Para aproximar este personagem dos brasileiros, basta lembrar que Humberto Delgado é o nome do Aeroporto de Lisboa, e é o fundador da TAP - Transportes Aéreos Portugueses. Certamente muitos já utilizaram a empresa para os seus voos Brasil-Portugal e também já desembarcaram naquele aeroporto.

Pois bem, à partir dos relatos de Frederico Delgado Rosa, entrei numa imersão de pesquisas através de livros, documentários e artigos de jornais para saber mais sobre esta figura que enfrentou Salazar, o Presidente do Conselho (uma espécie de Primeiro Ministro) português.
No início da sua carreira militar, fez parte do governo salazarista, apesar de logo ir se apercebendo de que não compactuava com as suas ideias, sendo assim designado para várias missões  internacionais. E foi nos 5 anos que viveu em Washington como representante de Portugal na Nato,  convivendo num regime democrático e num país moderno é que ficava ainda mais convencido de que era hora de Portugal tomar outro rumo.

Em 1958, já de volta ao seu país decide-se então candidatar-se a presidência da república. 
No dia 10 de Maio do mesmo ano, em Lisboa, numa conferência de imprensa, lança oficialmente a sua candidatura e ao responder a pergunta de um jornalista, o que faria com Salazar se for eleito presidente,  Humberto Delgado responde categoricamente: Obviamente, demito-o.
Está frase correu os jornais do dia seguinte e criou um "tsunami" no país que muito queria que isto realmente acontecesse.  

Quatro dias depois, a 14 de Maio de 1958 Humberto Delgado desembarca no Porto, na Estação de São Bento, para o seu primeiro dia de campanha política e é surpreendido com uma multidão à sua espera.
As ruas da Baixa do Porto foram tomadas por mais de 100 mil pessoas para aclamar a coragem daquele homem quase desconhecido para a população mas que dava sinais de esperança ao país.
As imagens deste dia no Porto são impressionantes, uma manifestação que nunca tinha acontecido em nenhum local do país. 


Chegada de Humberto Delgado na Estação de São Bento no Porto
foto: arquivo do jornal Diário de Notícias


Rapidamente a PIDE, a polícia do regime (posso comparar com o DOI-CODI do Brasil), tratou de impedir que as imagens circulassem e no dia seguinte a carga policial e as Forças Militares impediram as pessoas de se despedirem de Humberto Delgado nas ruas do Porto, que conseguiram chegar à estação de São Bento pela linha do trem vindas da Estação Porto Campanhã. 
Foi nesse dia que o general sem medo diz a célebre frase " O meu coração ficará no Porto". Um desejo  metafórico, seguindo o mesmo desejo de D. Pedro IV, o I Imperador do Brasil que literalmente deixou o seu coração à cidade do Porto.

O Porto prova mais uma vez a sua herança de cidade revolucionária e de luta pela liberdade desde há séculos. A sua homenagem a Humberto Delgado está eternizada desde 2008 numa escultura de José Rodrigues na Praça de Carlos Alberto onde esteve à varanda do seu comitê de campanhaa aclamado por milhares e milhares de pessoas.

escultura de Humberto Delgado no Porto




Humberto Delgado aclamado por milhares de pessoas nas ruas do Porto
foto: arquivo do jornal Diário de Notícias


A seguir, por todo o país Humberto Delgado arrasta multidões por onde passa, dando a certeza de que seria o candidato vencedor. Mas num ambiente de fraude eleitoral, o resultado das eleições deu como vencedor o candidato do regime Américo Tomás com mais de 75% dos votos e menos de 25% para Humberto Delgado. Numas eleições em que não foi permitido aos opositores acompanharem a contagem dos votos e que levou Américo Tomás à Presidência da República até o dia 25 de Abril de 1974. 
Humberto Delgado, o inimigo nº 1 de Salazar, passa a sofrer ameaças e pede então asilo político à Embaixada Brasileira e parte para o exílio no Brasil em 1959. Lá conhece a sua fiel secretária Arajaryr Campos, que envolve-se com a sua causa  pela liberdade e com quem inicia uma relação amorosa, tornando-os ainda mais cúmplices na tentativa de derrubar o regime de ditadura em Portugal para onde pretendem ir em 1962.  

Após ser descoberto na Argélia com o objetivo de entrar em Portugal  em 1965, o casal é vitima de uma emboscada organizada pela PIDE. Foram assassinados em Badajoz, na fronteira com a Espanha, seus corpos ocultados, vindo a ser descobertos 2 anos depois, dando início a um também processo duvidoso de investigação. 
Por isso, sua filha, Iva Delgado , historiadora e seu neto Frederico Delgado Rosa são incansáveis pesquisadores com objetivo de trazer toda a verdade desta história de uma figura tão fascinante.

História esta como muitas que não podem ser esquecidas e que  também fazem parte do 25 de Abril e da Liberdade. 

Para além da escultura na Praça de Carlos Alberto, o nome de Humberto Delgado está presente na praça onde se encontra a Câmara Municipal do Porto e a Estátua do escritor portuense Almeida Garret.


Praça General Humberto Delgado em frente à Câmara Municipal do Porto



Algumas fontes que vão lhe  ajudar a conhecer mais Humberto Delgado:

Podcast Quinta Essência - entrevista a Frederico Delgado Rosa

ou

Livros:




Documentários:


 

 Filme:

Operação Outono - conta o plano da PIDE para assassinar Humberto Delgado

Reportagens:

O "general sem medo" que levantou um país - uma reportagem depois de 50 anos da sua morte

Como matamos Humberto Delgado - entrevista de 1998 ao chefe da comitiva da PIDE que se refugiou no Brasil após o 25 de Abril.

Comentários

  1. Rita, por artigos como este (e tantos outros) é que tenho o maior prazer em dizer e escrever: eu AMO o seu blog!!! Trabalho preciosíssimo de alguém que sente e compreende o turismo para muito além de "pontos turísticos". Aprecio demais seu trabalho e quero, mais uma vez, deixar registrada a minha gratidão por tudo o que vc nos proporciona! Não é apenas o Porto que encanta... Você, também, minha querida!
    Um beijo enorme desde o Brasil (e que possamos nos encontrar à beira do D´Ouro em breve, amém!!!!)
    Bea

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    1. Bea!! Muito obrigada por palavras tao queridas. Um beijo grande!!

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