quinta-feira, 8 de agosto de 2019

O que significa ser "tripeiro".

Quadro com os trieiros no Porto

E nada melhor do que ser um portuense a explicar:


Quantos turistas chegam ao Porto e ouvem falar de um local: "nós somos tripeiros!"?
Quem faz a visita guiada ao edifício da Câmara Municipal do Porto, pode admirar na sala das sessões dos vereadores o belíssimo quadro do artista Guilherme Camarinha, que não deixa de expressar os "tripeiros" do Porto.
Quem vai a um jogo do F. C. do Porto no Estádio do Dragão, certamente vai escutar o cântico: "Quem bate palmas é tripeiro. É tripeiro. É tripeiro!!!"
Mas afinal... o que é ser "tripeiro?
Nada melhor do que ser o tripeiro cá de casa a explicar. 
Convidei o meu marido Rui Bonito, responsável pela minha decisão de ficar no Porto, e já lá vão 14 anos, a escrever sobre o que é ser "tripeiro". Afinal quem nasceu no Hospital da Ordem da Lapa, cresceu e viveu nas Antas (tradicional região da cidade), tem toda a autoridade para explicar aos meus leitores.
Os brasileiros vão entender, os portuenses... vão se identificar.

 As tripas:

Ser portuense é ser tripeiro, mas não só. É transportar nos seus genes - com orgulho - a história de toda uma cidade.
O Porto é uma cidade ímpar: mui nobre, leal e sempre invicta. Ou será “imbicta”? Pois é, uma das nossas características é, também, trocarmos os “vês” pelos “bês”...
Confusos? É natural, mas eu passo a explicar. 
Esta cidade - e o seu povo - tem muitas particularidades. Uma delas é que adoramos que nos “odeiem” por aquilo de que nos orgulhamos...


Locais conversando com o Porto ao fundo


E de onde vem o epíteto de “tripeiros”? Reza a lenda que em 1415 foram construídas nos estaleiros situados nas margens do Douro, as naus e os barcos que partiram para a conquista de Ceuta e, futuramente, para a epopeia dos descobrimentos. 
O povo do Porto, na sua mais genuína generosidade e altruísmo, ofereceu, para abastecer os navios, toda a carne de vaca que havia na cidade, ficando, unicamente, para seu consumo, com as tripas destas. Com elas confeccionaram um prato que, ainda hoje, é representativo da mais tradicional gastronomia da cidade: as famosas “Tripas à moda do Porto”, prato confeccionado com feijão branco e conhecido noutros locais por “dobrada”, ou “dobradinha”.

Aquilo que foi um gesto de grande generosidade, viria a transformar-se num “título” que até hoje usamos - com orgulho - há mais de 6 séculos... somos “tripeiros”!

A cidade e a personalidade dos tripeiros:

E se uma palavra pode definir um povo, porque não falar-vos também de uma outra que adoramos? Hospitalidade!
A minha casa é a sua casa! Aqui no Porto não temos “gente de fora”, temos sim, amigos que nos visitam, mas que moram sempre no nosso coração. Hoje cultivamos a mesma generosidade do tempo dos descobrimentos.

A minha cidade é única. Desde a sua localização na margem do mais icónico rio de Portugal - o Douro - até a forma como a nossa sociedade está estructurada. Aqui todos temos o nosso papel e uma paixão única: o Porto!
A arquitectura clássica funde-se numa harmonia perfeita com as mais modernas tendências. Desde Gustave Eiffel a Nicolau Nasoni, de Siza Vieira até Souto de Moura, todos têm lugar na minha cidade. Nós por cá somos ecléticos e fazemos disso a nossa bandeira.


O vinho... do Porto:

As margens do Douro são um exemplo de história viva. Com um pouco de imaginação podemos viajar através do tempo e viver aquilo que terá sido, porventura, muito da história de Portugal.
Nessa “estória”, nunca será esquecido um dos grandes ícones da cidade do Porto: o Vinho do Porto!

O aparecimento do Vinho do Porto, que remonta ao século XVII,  acontece por “acidente”.
Nessa época havia uma grande corrente comercial entre Portugal e a Inglaterra. Um dos principais produtos que exportava-mos era o vinho. Como as viagens naquela altura eram de barco e demoravam muito tempo, por vezes quando o vinho lá chegava, já estava estragado (ácido). Numa tentativa de o estabilizar e prolongar a sua qualidade, foi-lhe adicionada aguardente vínica. Surpresa! Quando esse vinho chegou ao seu destino, não só não estava estragado, como ainda estava muito melhor do que quando saiu de cá. Assim nasceu o tão famoso Vinho do Porto, tendo depois, ao longo dos anos, vindo a ser aperfeiçoada a técnica da sua conservação e envelhecimento, através do armazenamento, em barris de carvalho, nas caves.


barcos rabelo


O convite do tripeiro:

Bom, poderia ficar aqui horas a falar sobre a minha cidade e do meu orgulho em ser portuense e tripeiro, mas o melhor tributo que lhe posso prestar é servir de seu “embaixador” e convidar todos vocês a visitar-nos.
Nós respiramos orgulho e genuinidade. Não fazemos favores, devemos favores, por isso, façam o favor de nos visitar!
Desde a nossa vasta gastronomia, passando por uma paisagem única, até à simpatia das nossas gentes, há mais uma centena de motivos para se sentirem bem na minha cidade.
Para quem gosta de fotografar (por exemplo), ainda temos lugares onde se sente a atmosfera dos tempos medievais, passando por ambientes bucólicos em perfeita simbiose com as mais recentes tendências culturais.

local no muro dos bacalhoeiros

senhora na varanda do Porto


Aqui todos têm o seu espaço. Somos liberais por tradição - talvez por isso o coração do D. Pedro ainda “bata” na nossa cidade - e fazemos da tolerância a nossa bandeira.
Uma coisa é ler e outra é sentir, mas para isso... só vindo cá.
Nesta cidade a história está viva!

Beijos e abraços de um Tripeiro de gema.
Até breve, ou até sempre
Rui Bonito


Sessão fotográfica no Porto


Obrigada Rui! Pelo texto e pelas belas fotografias!
www.ruibonito.eu 













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