quarta-feira, 15 de junho de 2016

10 dicas para fazer o Caminho Português de Santiago.

Cada um faz o seu próprio Caminho de Santiago.
Engana-se quem pensa que tudo é igual para todos.
Engana-se quem pensa que está totalmente preparado.
O Caminho vai nos mostrar que não.
O Caminho é um aprendizado constante e "quando achamos que temos respostas para tudo" o Caminho vem e altera todas as perguntas.

Estas foram algumas das minhas inúmeras conclusões depois de caminhar 260 Kms, saindo do Porto até Santiago de Compostela, pelo Caminho Português Central (pode ver AQUI, porque escolhi fazer esta rota).
Fazer o Caminho nos preenche, e por isso, temos a necessidade de partilhar este aprendizado com todos os que querem um dia fazê-lo.

Em posts futuros vou  mostrar muitos pormenores sobre as etapas percorridas, os lugares para dormir, as comidas e as pessoas. Para já, deixo aqui:

#10 dicas para fazer o Caminho Português de Santiago

1. Ir Sozinho ou acompanhado?

Desde que decidi fazer o Caminho de Santiago só me faltava decidir se faria sozinha ou acompanhada. E a minha melhor decisão, foi fazê-lo com a grande amiga Elena Paschinger.


Mesmo indo acompanhada, é possível muitas vezes, ou até numa grande parte do percurso, irmos só com os nossos pensamentos.




Mas é importantíssimo saber que a uma certa altura, ou mesmo ao fim de cada etapa, podemos dividir os sentimentos com alguém, que não seja apenas os peregrinos que acabamos de conhecer, mas sim, alguém que confiamos e que rapidamente vai perceber e respeitar os momentos que passamos.
Algumas experiências e reações só temos no Caminho, por isso vale a pena ter alguém por perto.

O importante é que você e a sua companhia tenham muitas coisas em comuns. No meu caso, a minha amiga Elena, também é blogger, autora do Creativelena, por isso a nossa ida a Santiago, recebeu um nome: #duasBloggersumCaminho.
As duas sabiam que o nosso Caminho ia ser diferente da maioria das pessoas. Fomos as duas dispostas a recolher o máximo de informações possíveis  para transmitir as nossas experiências aos nossos leitores, com imagens e anotações.




Por isso, tínhamos toda a paciência do mundo quando uma perdia mais tempo com uma fotografia, uma publicação nas redes sociais, um video no snapchat.
Tínhamos em comum, além de fazer o Caminho, a preocupação com quem estava a nos acompanhar... à distância.

a fazer videos para o Snapchat - transmitindo as emoções do Caminho em direto para o mundo. foto: Creativelena

2. Quando ir:

Os melhores meses para fazer o Caminho são: fim de Abril, Maio, Junho e Setembro, quando nem o calor e nem o frio são extremos. Estes são os meses considerados época alta para os peregrinos, mas não quer dizer que o Caminho Português possa ser feito nos outros meses. A dificuldade é que em Julho e Agosto o calor é intenso e as caminhadas devem começar ainda de madrugada para terminarem pelo meio-dia.
No Outono e Inverno, é preciso levar mais roupas para se proteger e isto implica um peso maior para carregar.
Adorei fazer o Caminho, em Maio, em plena Primavera. As flores vão nos brindando a cada etapa com uma beleza muito especial.






O tempo é agradável e mesmo apanhando chuva por dois dias, nada atrapalhou a nossa boa disposição.

3. A preparação:

Como disse anteriormente, por mais que nos preparemos, o Caminho vai sempre nos mostrar que não estamos suficientemente preparados. E é esta a magia. É aceitar o desafio e continuar.
Mas... convém preparar-se!
Existem na internet e nas livrarias inúmeros guias e blogs sobre os diversos Caminhos de Santiago. Procure ler os que foram escritos por quem realmente fez o Caminho. Porque só quem faz...sabe.
Se você conhece alguém que fez. Converse muito com esta pessoa, tire dúvidas. Ouvir as experiências vão ajudar e muito!

uma "aula" com uma amiga que já havia feito o Caminho em 2011, ajudou e muito.
O mínimo de preparação física também é importante. No meu caso, que já tinha o hábito de caminhar uma hora por dia, passei a ir aumentando este tempo gradualmente, até chegar a duas horas por dia.
Mas saiba que vai caminhar pelo menos 6 a 7/dia. Por isso, prepare-se um a dois meses antes da sua partida, para  o seu corpo ir se habituando ao exercício diário.

4. O que levar:

Pouca coisa. A mochila nunca deve pesar mais do que 10% do seu corpo, e por mais que depois de alguns dias ela já fará parte do seu corpo, quanto mais leve melhor.
Optando em fazer o Caminho em dias mais amenos, as roupas leves e sintéticas, daquelas fáceis de lavar e secar são o ideal.
A atenção especial vai para os pés. Serão eles os mais sacrificados, por isso a escolha de boas meias e um bom calçado é fundamental.
Para evitar ao máximo as bolhas que muito provavelmente vão aparecer, é importante usar sempre duas meias e um calçado com um ou dois números acima do que você habitualmente usa. Com a longa caminhada, os pés incham e por isso vão ficar apertados e causar bolhas.
O calçado nunca deve ser novo. Antes de começar o Caminho vá se habituando com ele.
Os chinelos e sandálias serão os seus aliados ao fim de cada jornada. Leve-os. Os seus pés vão agradecer.
Protetor solar, relaxante para os pés e as pernas são obrigatórios. Pensos próprios para as bolhas, remédios e gel para as dores e anti-inflamatórios também.

o nosso kit "sobrevivência"
Um impermeável para você e outro a para a mochila também são obrigatórios. É quase certo de que algum dia irá chover...



Leve também máquina fotográfica, telefone, baterias, carregadores, blocos de anotações e um guia de bolso do Caminho.
Os bastões para a caminhada são importantíssimos. Ajudam a aliviar o peso do corpo sobre as pernas e os pés. Movimentam os braços e em algumas situações são os nossos melhores amigos.






5. As Etapas:

É nesta parte que vale a frase: O Caminho... quem faz somos nós mesmos.
Na maioria dos guias e informações sobre as etapas do Caminho Português Central, muitas delas implicariam em percorrer 30 ou mais Kms por dia, para terminar o Caminho em 9/10 dias.
Isto não me interessava. Já que estávamos, eu e a minha amiga Elena pensando em documentar tudo em imagens e anotações, para os nossos blogs e pretendíamos desfrutar ao máximo o Caminho, não fazia sentido para nós fazer tantos kms num dia e depois estarmos totalmente esgotadas para continuar.
Por isso, algumas etapas mais longas, dividi em duas partes.
Cada um conhece os seus próprios limites e os vai conhecendo durante o Caminho. Caso você ache necessidade de descansar por um dia inteiro e não caminhar, isto será mais importante do que fazer um esforço que poderá implicar no  término do seu Caminho.
O Caminho Português Central, normalmente é feito entre 9 a 11 dias. Por opção própria nós o fizemos em 13 etapas, que serão descritas nos próximos posts. E foi a melhor coisa que fizemos, porque conseguimos desfrutar cada metro percorrido. Faça o Caminho conforme você estiver se sentido e não como os outros acham que você deve fazer.

A partir desta rota do site. caminhoportuguêsdesantiago.com, criei ao nosso próprio Caminho para o projeto: #duasBloggersUmCaminho

6. Hospedagem:

Há muitos séculos atrás, quando o túmulo de Santiago foi descoberto na Galiza, milhares e milhares de peregrinos começaram esta tão famosa peregrinação. Era comum naquela altura, que estes peregrinos dormissem em igrejas, hospitais/albergues, conventos e coisas do genero.
Com o passar dos tempos foram instituídos albergues públicos e depois também os albergues privados.
Mas... hoje em dia, será mesmo necessário dormir neste tipo de alojamento, com mais de 10 pessoas no mesmo quarto, partilhando a mesma casa de banho/banheiro com desconhecidos? Há quem ainda pense que sim.
E depois há quem acredita que após tantas horas e kms percorridos, com o cansaço e algumas dores, um peregrino tem todo o direito de ter um bom duche e uma boa cama para o merecido descanso.

na Casa da Oliveirinha - em Aqualonga
Eu sou uma dessas pessoas. Penso que um peregrino não precisa sofrer 24 horas por dia. Achava que isto já era uma ideia que vinha com o peso dos meus 52 anos, mas com conversas para lá e para cá, vi que não era a única, e que isto não tinha nada a ver com a idade.
Mesmo a Elena, muito mais nova que eu e que não se importaria em ficar em alberques de peregrinos, ao fim de 2 etapas já concordava comigo: "precisamos mesmo do merecido descanso!"
E graças a excelentes parceiros que agradeço desde já, que acreditaram e apoiaram imediatamente o nosso projeto #duasBloggersumCaminho, mostramos nas redes sociais em direto e vamos mostrar nos nossos próximos posts que sim, há vários tipos de alojamentos dos mais simples aos mais luxuosos, que recebem os peregrinos que querem privacidade e tranquilidade para se recuperarem e estarem prontos para o próximo dia.

no Carmo's Boutique Hotel - em Ponte de Lima
Ainda há pessoas que pensam que os albergues são os lugares onde podemos confraternizar com outros peregrinos, mas... os peregrinos estão por toda a parte: no Caminho, nos restaurantes e cafés e nos hotéis também. Por isso, conviver com outros peregrinos é o que mais fazemos independente de onde ficamos hospedados.


Há quem pense na economia. Mas se alguém vai fazer uma viagem de 10 a 12 dias, para qualquer outro lugar do mundo, certamente vai ter que ter em conta os gastos com hospedagens e por que não pensar nisto ao fazer o Caminho?
Quando ainda estávamos no Caminho, uma seguidora do Snapchat, enviou-nos a seguinte mensagem no meu blog:



Por isso, estávamos orgulhosas em poder mostrar, que o Caminho pode ser feito com o merecido descanso ao fim de cada etapa.
Você pode ir reservando os seus hotéis durante o Caminho, de acordo com a sua perspectiva de chegada em cada cidade. Vimos isto acontecer diariamente com outros peregrinos.

Veja a reportagem fotográfica que a minha amiga Elena Paschinger fez sobre os lugares que ficamos hospedadas ao longo do Caminho: AQUI

7. Alimentação:

É ela que vai nos dar boa parte da energia que precisamos para percorrer uma média de 20 kms por dia, por isso, os pequenos-almoços/cafés da manhã devem ser bem reforçados, para começar o dia em grande e percorrer os primeiros Kms com força total.

na Quinta da Cancela - em Balugães
Pausas de duas em duas horas para uma fruta ou qualquer coisa leve também são muito importantes.
Mas... hidratação é fundamental! Água... sempre muita água!


Eu e a Elena optamos em nunca almoçar. Apenas parávamos por volta das 12/13 hs para um lanche mais reforçado, um descanso um bocado mais prologando e só.
Isto não quebrava o nosso ritmo para continuar.



Mas... ao fim de cada etapa, isto sim, é hora de nos presentearmos com uma boa refeição, um bom vinho e principalmente, apreciar a comida local.


na Casa Antiga do Monte - em Padrón

no Parador de Pontevedra

no Restaurante Picadeiro - em Ponte de Lima

8. Aprenda a conviver com as bolhas e as dores:

Bolhas
... é quase inevitável que elas apareçam. As minhas apareceram ao 5º dia e aprendi a tratá-las e a conviver com elas até o final.

foto: Creativelena




As dores também aparecem. A cada dia que passa, começamos a descobrir músculos e partes do nosso corpo que não sabíamos que existiam, até começarem a doer. Os alongamentos antes e depois de cada percurso e nas paragens para descanso também são fundamentais.

Durante todo o percurso, ao passarmos por vilas, cidades ou aldeias, sempre vamos encontrar farmácias e centros de saúde, por isso, não hesite em ir até lá assim que as bolhas ou outro problema aparecer. Eles vão dar todas as orientações necessárias.


sempre que parar para descansar, coloque as pernas para o alto

Mas como o Caminho é mágico, ao fim de alguns dias, o nosso corpo vai se habituando a todas estas adversidades e por isso... vamos até o fim!

9. As sinalizações, a vieira, a Credencial do Peregrino e a Compostela:

O Caminho Português de Santiago a partir do Porto é muito bem sinalizado. Basta seguir as setas amarelas, ou as vieiras, que sabemos que estamos no caminho certo. Sempre quando há alguma dúvida, uma cruz amarela, vai indicar que não é por ali.




as setas amarelas estão por toda parte. mesmo nos lugares mais improváveis

Muitos optam em ter a sua vieira, que é o símbolo do peregrino de Santiago, somente depois de completar o Caminho. Mas quase todos levam-na presa na mochila. É uma espécie de identidade.


Mas o que comprova mesmo que você está fazendo o Caminho, é a Credencial do Peregrino e os carimbos que você vai obtendo a cada etapa.

na Casa Antiga do Monte - em Padrón


no VillaD'Arcos Hotel - em Arcos

na Catedral de Tui
Quem começa o Caminho no Porto, pode adquirir a sua Credencial e os seus dois primeiros carimbos na Sé Catedral do Porto.
É certo que cada um pode fazer o seu próprio Caminho. Mas as rotas devem ser obedecidas e somente  os estabelecimentos que encontram-se nestas rotas, estão autorizados a terem os carimbos que vão comprovar que passamos por ali. A cada etapa, temos que ter no mínimo dois carimbos.
Para obter a Compostela, que é o certificado que comprova que você fez o Caminho, é preciso ter percorrido no mínimo 100 kms a pé de alguma das rotas do Caminho de Santiago.



10. "Deixe o Caminho passar por ti":

Ir e deixar o Caminho te conduzir é a melhor maneira de o fazer.
O Caminho é:
Desfrutar cada momento, aceitar as dificuldades, fazer amigos, partilhar experiências, respeitar o próximo, ver a paisagem de maneira que só quem anda a pé por aqueles trilhos pode ver.








É conhecer os locais, ter afecto, receber afecto, ajudar quem precisa, receber ajuda, livrar-se dos pré-conceitos, sorrir, chorar, abraçar.






É conhecer um país de uma maneira muito diferente. É falar muitos idiomas e ao mesmo tempo falar um só idioma: o da vontade de compreender e se fazer compreender.






Fazer o Caminho é não se arrepender daquilo que fez, mas sim... arrepender-se daquilo que não fez.




Faça o Caminho. Quando e como? O Caminho vai lhe dizer.

A seguir, os posts que vão dar mais dicas sobre cada etapa. Acompanhe.

Porque o Caminho Português de Santiago... encanta!

Pode conhecer as dicas da minha amiga Elena Paschinger para fazer o Caminho: AQUI.
Há sempre um olhar diferente. E é esta a Magia do Caminho!





  




4 comentários:

  1. Querida,

    Estou a adorar... TUDO !! As dicas, as fotos, a magia que você continua espalhando no seu post .. E é que o Caminho tem tanta magia, também é porque podiamos fazer-o juntas , falando um idioma só : A magia de quem fez o Caminho. ❤️

    Muito obrigada por colocar todos os meus links e as fotos também !!

    Ja tenho SAUDADES do Caminho e de você. Hoje, estive mesmo a contar a historia toda à minha avo, e nos emocionamos juntas. ❤️❤️

    Serà esta, a verdadeira "magia do Caminho"..! :)

    Até ja querida,

    Elena #HappyPilgrim !!

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  2. Querida Elena,
    Impossível não se emocionar a cada post e a cada foto não é mesmo?
    Obrigada por acreditar nas minhas loucuras :)
    Obrigada por ter sido a melhor companhia!
    Vamos lá! Espalhar mais magias do Caminho :)
    Porque podemos :)
    Até já!

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  3. Olá Rita, parabéns pela caminhada e pelo relato ! É emocionante e inspirador !!! Já estou fazendo planos !!

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    1. Obrigada Rosangela!! Faça sim! vale muito a pena!

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