domingo, 5 de julho de 2015

Do Porto para o Roteiro das Padarias e Biscoitarias, de outros tempos.


Numa das rotundas que dão acesso a Valongo, o município bem ao lado do Porto, as esculturas são a homenagem a estes dois ofícios tão importantes entre os séc. XVIII e XX. O padeiro e a regueifeira.
Era das mãos deles que se faziam chegar os pães no Porto e região...


No início do século XVIII, uma altura em que as padeiras no Porto, não fabricavam pães com qualidade, ficou decidido pela Misericórdia do Porto, responsável por um hospital na Rua das Flores, que os doentes deveriam consumir pães produzidos em  Valongo, daí surgiu a fama daqueles pães  que passou a ser consumido na cidade e em grande parte da região Norte do País.

A regueifa, o famoso pão de Valongo é um pão trançado feito com farinha de trigo português e americano. Em meados do século XVIII a produção deste pão cresceu tanto que de 59 padarias, este número cresceu para 132 . E também os moleiros, que eram os responsáveis pela moagem do trigo passaram de 5 para 19.
O trigo vindo em barcas no rio Douro, era desembarcado no rio Ferreira, ali na região de Valongo onde existiam vários moinhos que eram responsáveis pela moagem principal...


A tradição do consumo da regueifa seguiu-se por muitos e muitos anos. Numa época em que as padarias não abriam aos Domingos, as regueifeiras iam para as estradas, estações de comboios/trens e também nas casas, vender as regueifas. Por isso, até hoje há um hábito muito interessante no Porto e região. Atualmente aos Domingos, as padarias vendem imensas regueifas.

a regueifa

Bom, quando eu soube, que na Festa Oitocentista da Regueifa e dos Biscoitos de Valongo, que aconteceu em Junho,  estaria inserido um tour a respeito deste pão tão famoso, é claro que eu fui saber mais.
E para completar e enriquecer este post, fui ao Arquivo Municipal de Valongo conhecer uma exposição sobre as padarias e biscoitarias de Valongo. Sim, os biscoitos de Valongo também são muito famosos. Tudo está relacionado à qualidade da farinha e dos antigos fornos a lenha.
Mas... este tour num Roteiro que se chama do Grão ao Pão explica ainda mais....

Para começar a falar sobre as padarias de Valongo e a  sua importância na economia da região, nada melhor do que iniciarmos com uma visita a Igreja Matriz de Valongo...




Para se ter uma ideia, a produção de pão naquela altura  era tão grande que com o imposto do pão, esta belíssima igreja foi construída, no fim do séc. XVIII, no local onde chegou a ser um abrigo de tropas da invasão francesa.
Das igrejas da região fora do Porto, é a que tem o maior valor patrimonial... 





Um grande pintor do Porto na época, João Batista Ribeiro e outros grandes artistas foram chamados para trabalharem na decoração deste patrimonio, tudo graças ao imposto do pão.
Antes de tudo isso acontecer, Valongo tinha apenas esta pequena Igreja...


Todas as ruas que envolvem a Igreja Matriz de Valongo fazem parte do roteiro onde funcionavam em quase todas as casas, padarias ou biscoitarias, muitas delas sobreviveram entre os séculos XIX e XX.
Os tempos mudaram, a industrialização arrasou a produção artesanal e a grande maioria fechou...
Este tour por estas ruas, mostra a grande quantidade de padarias e biscoitarias que lá existiam. Todas as casas estão marcadas...

Manuela Ribeiro, do Arquivo Municipal de Valongo


muitas delas abandonadas, outras foram recuperadas e ainda pertencem às famílias famosas dos antigos padeiros...




por entre as ruelas, a simplicidade e o ambiente bem distante da correria urbana, este roteiro é uma viagem no tempo...







estas padarias eram o lugar do fabrico, das vendas e da moradias dos padeiros


Todas estas casas tinham: portas muito largas, por onde passavam os burros e as argolas para amarrá-los do lado de fora. Os burros eram o meio de transporte das padarias naquela época...




Os tempos mudaram...


O ponto alto deste tour foi quando a D. Rita, filha de antigos padeiros, abriu-nos a casa onde foi a padaria da sua família que simplesmente parou no tempo. Fechou, é lá tudo ficou...


o antigo forno

Fotos de família...






Livros de contabilidade e de clientes...


pedaços de estuque...



Que incrível tudo isto! A D. Rita, seguiu o restante do caminho ao meu lado. Uma senhora que é uma enciclopédia ali da região. Sabe os nomes de todas as antigas famílias de padeiros e onde eram as suas padarias...



Lá adiante a casa onde era a Biscoitaria Diogo...



e que eu encontrei imagens na exposição no Arquivo Municipal...


Algumas poucas padarias sobreviveram. Hoje são mais modernas, já não tem os fornos a lenha, mas a fama continua. Ali conversa-se com as padeiras dos dias de hoje...





as regueifas também ganharam outros formatos

Pela rua também vamos ganhando indicações de outras pessoas dali. Todos conhecem onde eram as padarias e bsicoitarias e sabem também quem era quem...


Rostos de antepassados que eu encontrei no Arquivo Municipal. Famílias famosas de padeiros, que normalmente se uniam devido ao casamento entre os seus descendentes...





Tradição... 


Há quem resolveu manter a tradição e a Biscoitaria Valonguense, faz questão de manter a produção artesanal dos seus biscoitos em forno a lenha, como conta com orgulho a proprietária...




Está lá tudo como antigamente...



E é também neste roteiro que encontramos a Biscoitaria Paupério com 140 anos de tradição e que hoje tem os seus biscoitos em quase todas as lojas de produtos gourmet e regionais da cidade do Porto...



Valongo tem orgulho dos seus pães, regueifas e biscoitos e por isso todos os anos, faz uma bonita homenagem à esta tradição tão importante para a economia da cidade. Na altura da Festa da Regueifa e dos Biscoitos as casas enfeitam-se assim...






Porque os pães ali produzidos por muitos e muitos anos, entraram nas casas de milhares de portuenses e de muitas famílias da região Norte. Histórias que encantam e memórias que ficaram para sempre!

Roteiro Das Padarias e Biscoitarias de Valongo.
Somente para grupos de aproximadamente 20 pessoas.
Mais informações:



4 comentários:

  1. Maravilhoso! Fui criada em Ermesinde e desde sempre fui habituada à tradicional regueifa e aos pregões das regueifeiras( na estação de comboios de Ermesinde) nas manhãs de domingo. Há coisas que deixam saudades. Parabéns pelo artigo.

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    1. Obrigada Susana Pereira! Sim, imagino que deve dar saudades destes tempos!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Sou Valonguense, e artigos como este enchem nos de orgulho, não há melhor pão e biscoito que o nosso, a nossa terra esconde grandes tesouros...
    Parabéns pelo artigo.

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