quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Um percurso por algumas ruas do Bonfim... com poemas. Lindo!

No última Sábado, tive o privilégio de acompanhar um percurso muito especial que homenageou o poeta Eugênio de Andrade, que apesar de ter nascido no Fundão, viveu no Porto de 1950 até a sua morte em 2005, com 82 anos. É mais uma daquelas pessoas que viveu intensamente esta cidade e passou a chamá-la de sua.
Com uma vasta obra literária, tendo recebido várias distinções, sempre fez questão de levar uma vida discreta, vivendo a maior parte da sua vida na região do Bonfim, onde se encontra a Biblioteca Municipal do Porto, que protagonizou esta homenagem promovida pela Câmara Municipal do Porto.



Um percurso pedonal orientado por Germano Silva...


o conhecido jornalista "que pretende contar histórias",  é assim que ele se auto-define.
Circulamos pelas ruas do Bonfim, principalmente as que estão à volta do romântico Jardim de São Lázaro com paragens em alguns pontos que de certa forma tiveram a ver com Eugênio de Andrade, para ouvir alguns dos seus poemas lidos por: Antonio Domingos, Idalina Fitas, Lúcia Vaz, Armando Pereira, Paula Abrunhosa e Palmira Troufa.
O primeiro ponto de leitura foi já no Jardim de São Lázaro mesmo em frente ao edifício da Biblioteca Municipal do Porto (Antigo Convento de Santo Antonio da Cidade). Um jardim marcado por seus romantismos de antigamente com belíssimas esculturas, árvores, flores e repuxos de água.
Tudo ficou ainda mais especial com os poemas naquela manhã de Sábado...



E começa então uma verdadeira aula sobre lugares muito tradicionais do Porto, distantes do circuito turístico, mas cheios de identidade.
Muito próximo do Jardim de São Lázaro, fomos dar ao pequeno Largo do Camarão, que abrigava um recolhimento de viúvas pobres, vulgarmente chamado de recolhimento do Camarão, que era como era conhecido um dos moradores daquele Largo...


O percurso segue em direção à Rua de São Victor, mas passa primeiro por um conjunto habitacional, onde eu vim a conhecer o sistema de habitação SAAL:

Em Portugal, e durante décadas, a produção de habitação para as fracções mais desfavorecidas da população, privadas do acesso a um alojamento através do mercado, foi pautada quer pela ausência do envolvimento activo dessa população no processo de projecção e construção, quer pela segregação territorial para as zonas periféricas das cidades. O SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), surgido na sequência do processo revolucionário de 74, aparece como uma medida inovadora em Portugal: a produção de alojamentos para as classes mais desfavorecidas far-se-ia com a participação activa destas (a auto-construção, por exemplo, era promovida) e garantindo a manutenção nos espaços residenciais habituais (salvaguardando o direito ao lugar). fonte: brometro.com.pt


Este conjunto habitacional SAAL, foi projetado pelo famoso arquiteto Álvaro Siza Vieira...


Seguimos para a Praça da Alegria, para mais uma leitura de poemas...


Estamos numa região da cidade onde entre a metade do séc. XIX e a do séc. XX, surgiram muitas indústrias e por isso instalaram-se ali vários bairros operários onde viviam os trabalhadores . Por isso, Germano Silva levou-nos para conhecer as "ilhas".
Estreitas entradas que vão dar a corredores com casas dos dois lados, que hoje também podemos chamar de "vilas"...



A maioria das fábricas e industrias já não existem, por ali continua a morar gente muito simples, mas ao contrário do que se possa pensar, são pessoas genuinamente do Porto, pessoas de bem.
A Rua de São Victor tem detalhes para observar...


e nos oferece uma vista fantástica!


Seguimos o percurso pela Rua Duque de Saldanha para conhecer uma outra "vila", esta com estilo vitoriano..



Chegamos então à Rua Duque de Palmela, em frente à casa onde viveu Eugênio de Andrade... 


para ouvir um pouco mais da beleza dos seus poemas...


Por ali, a arquitetura é também muito particular e linda. Os azulejos  lá estão. Estes mais num gênero industrializados, mas igualmente lindos!


Detalhes incríveis...



Marcas de outros tempos...



Seguimos para a Rua Antonio Granjo e Avenida Camilo. 
Se lá na Rua de São Victor, viviam os operários da fábricas do Bonfim, aqui viviam os industriais, os comerciantes e burgueses. E daí, as grandes casas, palacetes como este na Quinta do Cativo...



E a arquitetura exibe ainda mais a sua beleza...


Seguimos a admirar todos os detalhes...




... para o "gran finale" do nosso percurso.

No Jardim do Campo 24 de Agosto, Germano Silva nos conta  que ali, no séc. XVI encontrava-se um grande reservatório de água que servia para abastecer a cidade. Chamava-se Arca D'Água de Mijavelhas, ou Campo Grande, como era chamado o Campo 24 de Agosto, captando mananciais de água para servir as fontes e chafarizes.


A chuva que de repente começou a cair, nos empurrou rapidamente para dentro da estação do Metro Campo 24 de Agosto...


E eis que ali está para minha surpresa, porque nunca tinha por ali passado... a Arca D'Agua de Mijavelhas,
encontrada durante as escavações para a construção daquela Estação e conservada para ali ser observada por quem usa a Estação do Metro Campo 24 de Agosto...



Quem quiser saber mais detalhes sobre esta Arca d' Água pode ver o link do Metro do Porto: AQUI, vale a pena
E para terminar um poema de Eugênio de Andrade...


poema que eu aqui reproduzo em homenagem ao poeta, mas principalmente, à gente do Porto, que faz desta cidade, ser o que é:

A Cidade e a poesia
"Mas a cidade o que tem, sobretudo, é carácter - um carácter que faz do cidadão do Porto o mais belo estilo de ser português.
Esta cidade, cujo espírito exasperado e viril fez do granito escuro das suas pedras espelho da própria alma; esta cidade, cuja gente tem uma rudeza de fala e de gestos que lhe vai a matar com o seu ódio à futilidade e à hipocrisia; esta cidade, que herdou da aspereza do solo e do cartão duro do rio uma solidez que leva às cisas da arte e do coração; esta cidade, deixai-me repeti-lo, com o seu carácter eminentemente democrático e popular, torna o resto do país com excepção do Alentejo e do Alto Douro, completamente amorfo."
                                                                                    À sombra da memória, 1993

E com lágrimas e emoção, termino este post. Obrigada Porto.


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