domingo, 9 de outubro de 2016

O Porto dos "brasileiros"... de torna-viagem.

Nas Jornadas Europeias do Patrimonio de 2016, acompanhei a museóloga da Câmara Municipal do Porto, Isabel Andrade Silva, num percurso pela zona oriental da cidade do Porto, onde nos finais do sèc. XVIII até o início do séc. XX, se instalaram a maioria dos "brasileiros" de torna-viagem.


E quem eram esses "brasileiros"? 

Eram muitos dos mais de um milhão de portugueses que naquela época começaram a ir para o Brasil trabalhar, e que lá conseguiram fazer fortunas.
Muitos voltaram para Portugal, e  se instalando na cidade do Porto justamente na região oriental...


Numa região onde a maioria das ruas recebem o nome desses "brasileiros"



 A zona central da cidade era maioritariamente habitada pelos próprios portuenses, já a zona ocidental, pelos ingleses, negociantes do vinho do Porto e na zona oriental os "brasileiros" como ficaram conhecidos foram se instalando e construindo palacetes de arquitetura arte nova e com pormenores que identificavam, serem as casas dos "brasileiros"...






Junto com as fortunas, traziam para Portugal o gosto pelas artes, pela cultura, e a ideia de fazerem casas parecidas com os hotéis que muitos ficavam hospedados quando viajavam para Paris.
Por isso as casas eram cheias de detalhes nos exteriores e interiores. 
Passear por esta região da cidade é descobrir uma série de casas com uma arquitetura muito especial...


muitas portas apresentam a figura do índio guarani, em sinal da admiração que estes "brasileiros" tinham pela cultura índigena do Brasil
As casas tem sempre entradas laterais com acesso à amplos jardins e muitos deles com palmeiras, camélias e várias plantas ornamentais...



Tivemos a oportunidade de entrar em dois desses palacetes para observar no seu interior, trabalhos artísticos e arquitetonicos incríveis. Onde dá para observar a vontade que estas pessoas tinham de exibir a sua riqueza tentando fazer réplicas de autenticos ambientes de hotéis parisienses da época...








naquela época, não bastava ser um simples corrimão...

verdadeiras obras de arte dentro de casa...



do teto ao chão





Pelas ruas desta zona da cidade é possível ver muitas garagens lado a lado...



os "brasileiros" foram os que tiveram os primeiros automóveis que circularam pela cidade do Porto e estas garagens eram onde ficavam estes automóveis.

Assim como haviam por lá algumas cavalariças, onde eram guardados os cavalos utilizados antes do surgimento dos primeiros carros...



Outra curiosidade naquela região, são casas mais simples construídas ao lado dos palacetes, que eram alugadas para os "brasileiros" que voltavam e que não tiveram a sorte de fazer fortuna e não tinham condições de construir suas próprias casas...



por causa desses menos afortunados, surgiu a expressão "sem eira nem beira", uma vez que as casas dos mais ricos, eram cheias de grandes beirais e detalhes enriquecidos nas fachadas que identificavam ser uma casa de alguém que foi e fez fortuna. 
Já os que tiveram menos sorte, voltavam e moravam em casas mais simples... "sem eira e nem beira".

A zona oriental do Porto, foi um local de muitas indústrias, uma vez que os grandes homens de negócio, traziam matérias primas do Brasil que eram manufacturadas em muitas destas fábricas ali instaladas.

Outra curiosidade por ali, é sobre o escritor Camilo Castelo Branco...


que em seus romances fazia questão de colocar os "brasileiros" de torna-viagem, como personagens maus, uma vez que o marido da sua amada Ana Plácido era um dos "brasileiros" do Porto.

Mas, na realidade, estes "brasileiros" que voltaram para Portugal, nomeadamente no Norte do país, não se limitavam apenas a construir grandes palacetes.
Muitos construíram escolas, jardins, parques, linhas de ferro, hospitais, teatros e lugares emblemáticos como o Grande Hotel do Porto e os cafés A Brasileira (no Porto, Lisboa e Braga) e muito mais.
Foram grandes bem feitores para a cidade e região.

Um período na história da cidade e do país muito especial e que está fortemente ligado com a cultura da emigração do povo português, que pode ser visto numa série de documentários exibidos na televisão (RTP2) chamado Ei-los que partem.

Aqui pode ver um dos episódios que está ligado à esta época, e entender muito mais sobre esta relação dos portugueses que partem e muitos que voltam. São os torna-viagem...



Andar pelas ruas entre o Jardim São Lázaro e o Museu Militar na cidade do Porto é ter a oportunidade de apreciar uma arquitetura muito diferente do resto da cidade e que vale muito a pena!

Histórias do Porto que encantam!

10 comentários:

  1. Texto muito bom !!! Dá vontade de conhecer, ver de perto toda essa história!! Parabéns Rita !!!
    Filomena

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    1. Obrigada Filomena! Vale mesmo conhecer. As casas são lindas! bjs

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  2. Muito interessante conhecer um lado diferente da cidade do Porto, onde podemos constatar a semelhança da arquitetura. Realmente uma bela reportagem. Parabéns!

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    1. Obrigada. Na verdade é lamentável que muito destes palacetes estejam hoje a cair. Um bom exemplo é o que fica na Rua do Bonjardim, atrás da Casa de Saúde de Sta. Catarina e outro que fica na rua que faz gaveto com o Hospital Militar, na Av. da Boavista perto do Colégio do Rosário... etc, etc.

      Maria Luísa

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    2. É verdade Henrique, são tão lindos estes palacetes, merecem ser recuperados.

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  3. Meu avô foi um emigrante no Brasil, nos anos de 1920 e poucos, minha avó não quis ir, e ele voltou, aí abriu a Rositer Foto Na Rua Antero de Quental 374 no Porto ( O prédio ainda lá está hoje remodelado! Tenho muito orgulho de meu avô por ter trabalhado no Rio de Janeiro, em tudo que lhe aparecia que fosse honesto, inclusive cobrador de bonde, entregador de jornais etc., e assim recomeçar sua vida com minha avó e me dar bons exemplos!Obrigada Jorge Portojo sua amiga e admiradora

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    1. Obrigada Isabel pelo seu bonito depoimento.

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  4. Quando passo na Av. Rodrigues de Freitas gosto sempre de admirar estas moradias e prédios e, normalmente, chamo a atenção para quem me acompanha, para a sua beleza e pormenores, só que agora fiquei sabendo da sua história.
    Obrigada por este trabalho. Parabéns.

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    1. Muito obrigada Isabel, realmente aquela região também é encantadora.

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